sexta-feira, 10 de junho de 2011

Círculo vicioso


Ele está sentado em um banco da Praça. Sua perna esquerda cruza sobre á direita e as mãos ajustam o agasalho preto que contém um complemento de um capuz. Ele observa seus sapatos, mesmo estando com pouca visibilidade por ser noite, aproximadamente 23h45min, percebe o seu brilho. Por estar só sente a necessidade de acender um cigarro. Suas mãos apalpam os bolsos para não ter de por a mão em cada um deles. Dentro da segunda camisa de botão encontra seus cigarros estando seu isqueiro já à mão.
Ele põe o cigarro na boca e com o polegar esquerdo gira sobre a superfície do isqueiro. O vento sopra, então, ele retrai o cigarro da boca e observa o mover-se das folhas secas. Logo, sua atenção volta em acender o cigarro. Antes um sorriso insignificante de sua tolice em observar as folhas e algumas palavras pronunciadas consigo mesmo.
Ele retorna á acender o isqueiro, o fogo chega á aquecer a ponta do cigarro quando é interrompido por um andar diferenciado. Uma morena da cor da noite trajando um vestido vermelho decotado, e curta até os joelhos. Ela comete um erro inocentemente: soltar os cabelos na frente de um fisionomista nato e doentio.
O homem deixa tudo o que lhe pertence no banco e a segue. Aquela pele morena, cheirando a creme de cacau, seus cabelos longos um pouco acima das nádegas, o nariz afilado acompanhado com os lábios carnudos de uma pessoa negra, torna-se sua cobiça. Dentre outras mulheres ele a reconhecia.
Põe seu capuz e acelera seus passos. Seus batimentos cardíacos aceleram, suas pupilas delatam, as mãos suam, os lábios secam... Novamente sente o desejo de fumar. Procura o cigarro e percebe que os deixou no banco. Volta esquecendo por um momento a pessoa a quem procurava, senta-se no banco, põe o cigarro novamente na boca e com o polegar direito passa sobre a superfície do isqueiro quando novamente o vento sopra...

Jaz o falecido

Seus olhos não mais se abrirão.
De sua boca nenhum som nenhum gemido.
Seus ouvidos perde a percepção do som,
Sua alma transcende. Que Deus o tenha diz à língua que ainda vive.

Levam seu corpo como que não quisessem fazer isso. A cada passo muitas lágrimas, a cada lágrima nenhum consolo. As orações pedem ao Senhor que o traga de volta. Velas, terços, orações do Pai nosso não traz de volta o bem querido.

Basta morrer um para que todos morram junto com ele. No momento final muita dores, choro, desmaios, flores etc. O olhar fixo no caixão fechado imaginando que esteja vazio. Tudo volta a realidade quando se percebe no momento em que descem o caixão.

Tudo naquele momento e como se fosse a última coisa. A última coisa é como se fosse à primeira. De mãos dadas e caminhando lentamente voltam para casa.

Em casa falta algum lugar à mesa. Em casa falta algum lugar na cama. Até que se compreende que jaz o falecido.