sexta-feira, 2 de julho de 2010

Contemplando no espelho do tempo


Contemplo-me fixamente, sim, me contemplo neste quarto escuro e sombrio. contemplo-me com os olhos cansados, trazendo sobre si os fardos de uma história sofrida que se pode enxergar pelos raios de luz que penetra este meu quarto escuro e sombrio.

Estes raios de luz refletem com grande espetáculo quando acompanha o cair de um choro desenfreado; sim, no momento choro, mas, choro porque sou criança, choro porque sou homem, choro porque meu quarto está escuro.

Com um pouco mais de luz vocês veriam melhor o que na escuridão consigo contemplar...

É assim que me contemplo: Calado, às vezes sem esperança, as vezes sorridente, as vezes sonhador. É assim que contemplo este meu rosto com rugas que substituíram a pele macia da minha juventude.

É assim que contemplo esses cabelos brancos que logo substituíram os pretos. É assim que me contemplo, porque não sei me contemplar de outra maneira.

É assim que contemplo e contemplando percebo que a hora passa. Passa sem esperar, e na medida em que passa só a percebo porque carrego em meu punho fragilizado um relógio. Com os ouvidos fragilizados ainda consigo perceber que La fora chove, chove porque aqui dentro também chove...

Estes olhos quase cegos anunciam a vulnerabilidade da fragilidade humana. Caio no poço de fragilidades, e às vezes mergulho num mar de desilusão, querendo me agarrar num bote de insegurança...

Os pés que antes eram firmes hoje vacilam, mas não vacilam tanto por causa da bengala. As rachaduras nos pés e as mãos calejadas contam os anos de vida de um trabalho sofrido.

E é assim que me contemplo fixamente no espelho do tempo, é assim que me contemplo neste meu quarto escuro e sombrio.

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